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09 outubro 2016

Ensaio: Nós nunca nos visitamos

O mundo passa constantemente por diversas mudanças de aspecto científico, tecnológico, industrial, físico, natural, dentre outros. Entretanto, a situação do distanciamento entre as pessoas no espaço real, no cotidiano, parece permanecer a mesma, na verdade, em certos lugares está cada vez mais ampla. Vivemos no fluxo rápido do dia a dia, muitas vezes nos esquecendo de quem realmente somos e dos nossos ideais, esquecemo-nos das pessoas ao nosso redor e até mesmo que possuímos sentimentos e vínculos com elas. Enquanto tudo isso acontece vamos perdendo, sem perceber, a riqueza do conhecimento, o dinamismo das experiências, a delicadeza das relações, e por que não dizer também o sentindo da vida.
Durante a leitura dos textos contidos no livro E Se Obama Fosse Africano, o qual fala sobre as línguas e suas relações, conseguir ver alguns dos pontos que o autor desejava transmitir com suas experiências e visões. E alguns realmente me prenderam.
Mia Couto (2011, p.14) nos diz “Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.”, para mim isso é a perfeita descrição da sociedade em que vivemos, onde há tanta tecnologia e modernidade, com milhares de meios de comunicação virtual, permitindo o contato com pessoas do outro lado do mundo, fato que em verdade poderíamos concordar ser uma experiência incrível, se não deixássemos também de manter contato com as pessoas a nossa volta e com o que pode afetar nossas vidas de maneira mais rápida.
Isso me remete a exposição rastros, na qual o artista responsável pelo projeto contou sobre suas experiências enquanto viajava pelas cidades do interior do Estado do Ceará, deixando suas intervenções artísticas na parede das casas. A troca realizada pelo artista e os moradores durante esse período foi algo tocante, as atitudes dos moradores que ofereciam a ele e sua equipe água, café, e até mesmo bolo, para conseguirem realizar o trabalho sob o tempo quente do interior, gestos realmente simples, mas que não costumamos ver mais com frequência nas cidades, e que fez toda a diferença nessa troca de relações.
É interessante pararmos para refletir também sobre outra informação que Mia Couto (2011, p.20) nos dá, ele conta que em algumas línguas de Moçambique não existe a palavra “pobre”, na verdade, ser pobre significa para eles ser órfão. Alguém que não possui mais nenhuma relação familiar, além de não ter bens, não tem nenhum apoio para sobrevivência. A pobreza é a solidão.
E isso é o que estamos fazendo, ficando pobres. A sociedade está cada vez mais pobre, não somente em infraestrutura ou serviços, mais também em relações. Afinal, não percebemos ou não aceitamos que necessitamos do outro e que o outro necessita da gente. Estamos viciados no individualismo, acreditando que podemos fazer tudo sozinhos, quando na realidade, precisamos de ajuda. Concordo com o fato de que a vida requer, sim, certa autonomia, mas não ao ponto de amarmos a solidão.
No filme Mais Estranho que a Ficção, vemos como seria se um dia em meio a nossa rotina descobríssemos que a morte está a nossa porta. Para o personagem Harold Crick, ter uma voz em sua cabeça contando todos os seus passos, a qual não era a sua consciência, e logo anunciando que ele iria morrer, não fazia nenhum sentindo. Mas, diante do novo fato ele começou a perceber que a vida apenas dedicada ao trabalho e vivida de modo individual é um desperdício, e quanto tempo ele perdeu nesse vazio, então decide mudar seus hábitos e ser mais feliz com o tempo que lhe resta.
Apesar do filme possuir uma interação com a ficção, não deixa de ser intensamente real. Passamos pela vida, na maioria dos casos, como meros fantoches da sociedade, manipulados e frios. Até que algo feroz desperte a nossa consciência e alma para que possamos enxergar os erros que estamos cometendo de apenas existir, sem nenhuma vivência ou troca.
Seja em um texto, ou em uma exposição, ou em um filme, se pararmos para analisar com cuidado por quais caminhos estamos indo, iremos notar que algo está errado. Provavelmente perderemos esse falso saber da individualidade, quero dizer, claro que todos somos únicos, tanto em características como em personalidade, assim a individualidade deveria acrescentar ao invés do errado entendimento de subtrair. Faço uso mais uma vez da opinião de Couto, com a qual concordo plenamente: “O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade.” (2011, p.13).
É a diversidade que engloba as trocas de sentimentos, opiniões e vivências, é ela o verdadeiro motivo do conhecimento, riqueza e sucesso.  Precisamos buscar cada vez mais lutar por ela e fortalecê-la, para isso há a necessidade de nos visitarmos, de sermos mais gentis, humildes e generosos, e a partir disso possamos merecer a denominação de sociedade.

REFERÊNCIAS
COUTO, Mia. E se Obama fosse Africano?: e outras intervenções. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2011.
HELM, Zach; FORSTER, Marc. Mais Estranho que a Ficção, 2006.
RASTRO – Uma exposição de Weaver F, 2016, Fortaleza.

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